domingo, 18 de junho de 2017

A LITURGIA E A ARTE

“A liturgia é a vida tornada Arte”, já dizia Romano Guardini. O que é a força para a vida ativa, é a beleza para a vida contemplativa da Igreja. A Igreja não é somente uma estrutura para fins práticos, mas também plena de sentido em si mesma, é vida que se torna arte. E esta arte é manifestada na liturgia.




Uma determinada coisa é bela quando a sua essência e significação íntimas são expressas de modo total no seu ser. É nessa “expressão total” que reside a beleza. Pulchritudo est splendor veritatis – est species boni, dizia a filosofia antiga: “A beleza é o esplendor perfeito que revela a verdade essencial e o bem interior do ser”.


A linhagem agostiniana de Ratzinger também se manifestou na atenção que ele presta à beleza. Embora não tenha tratado esse tema como uma questão acadêmica, em tudo o que escreveu sobre a beleza fica implícito a preferência pelas linhas seguidas por Santo Agostinho, Jean de la Rochelle, São Boaventura, Hans Urs von Balthasar.

Ao contrário de tantos outros que, pelo menos no contexto litúrgico, estão impregnados da atitude kantiana, a qual apresenta a estética como mera questão de gosto, Ratzinger não considera que a categoria da beleza seja algo exterior à teologia. Não obstante, em sua primeira Exortação Apostólica, a Sacramentum Caritatis, o papa Bento XVI assevera que “tudo o que se refere à Eucaristia deve ser identificado pela beleza”. Ele lembra aos sacerdotes e fiéis que “a liturgia, como aliás a revelação cristã, tem uma ligação intrínseca com  a beleza:  é esplendor da  verdade  (veritatis  splendor)”.  Citando  São Boaventura, ele escreve: “em Jesus, nós contemplamos a beleza e o esplendor das origens” e isto não é visto “como mero esteticismo, mas como modalidade com que a verdade do amor de Deus em Cristo o alcança, fascina e arrebata, fazendo-nos sair de nós mesmos e atraindo-nos assim para a nossa verdadeira vocação: o amor”. Aqui ele reitera a visão de São Boaventura de que Deus permite seja Ele vislumbrado, antes de tudo, na criação, na beleza e na harmonia do cosmos. Com referência à experiência de Pedro, Tiago e João na Transfiguração, ele sustenta que a beleza “não é um fator decorativo da ação litúrgica, mas seu elemento constitutivo, como atributo do próprio Deus e da sua revelação”, ou seja, a beleza para ele, é um elemento essencial à ação litúrgica, pois pertence ao Mistério de Deus, “é expressão excelsa da glória de Deus e, de certa forma, constitui o céu que desce à terra”.


Ratzinger se afasta das tradições protestantes e também daqueles que, dentro da própria Igreja, têm aceitado a crença protestante de que a beleza é preocupação de fariseus, ou aquilo no qual se acredita a teologia da libertação: que um amor à beleza está vinculado à indiferença burguesa pela miséria dos pobres. Ele tem empatia com a reverência protestante pelas Escrituras e por seu foco na Cristologia, mas não se identifica com a hostilidade protestante contra a beleza. Como von Balthasar escreveu: “qualquer pessoa que seja enamorada da beleza tremerá de frio no celeiro da Reforma e se sentirá atraído por Roma”.



Não obstante, um dos problemas atuais é que a pobre alma mediana, que está tremendo no celeiro da Reforma, encontrará o mesmo frio no celeiro de muitas paróquias católicas. A partir desta perspectiva, a preocupação com o belo não é  um problema que  surgiu somente após o Concílio, e não foi por culpa da “nobre simplicidade” pedida por ele, mas por más  interpretações  dos  documentos  conciliares  e  de  pensamentos  que surgiram antes do Vaticano II.


Balthasar, na introdução ao primeiro volume de sua obra monumental Herrlichkeit (Glória), na qual desenvolveu uma teologia sistemática focada na importância da beleza, escreve:


A beleza é a última palavra que o intelecto pensante pode atrever-se a pronunciar, porque esta não faz outra coisa a não ser coroar, como auréola de esplendor inapreensível, a estrela dupla da verdade e do bem e sua relação indissolúvel. Esta é a beleza altruísta, sem a qual o velho mundo era incapaz de ser compreendido, mas que deixou, na ponta dos pés, o moderno mundo dos interesses, abandonando-o à sua cobiça e tristeza. Esta é a beleza que já não é amada ou mesmo guardada pela religião, mas como máscara arrancada de seu rosto, revela os traços que ameaçam ser incompreensíveis para os homens. Esta é a beleza em que já não ousamos acreditar e que transformamos em aparência para que possamos nos libertar dela sem remorsos. Esta é a beleza, enfim, que requer (como é demonstrado hoje), pelo menos na coragem e força de decisão da  verdade  e  da  bondade,  e que  não  se  deixa  reduzir  ao ostracismo e separar dessas suas duas irmãs sem arrastá-las consigo em uma misteriosa vingança.


São palavras de clara condenação, por parte de um teólogo bem “moderno”, do espírito funcionalista típico da modernidade, que é incapaz de apreciar o valor das coisas belas que não tenham um reflexo imediato no campo da utilidade. Como compreender hoje o valor dos detalhes minuciosos que os artistas traçaram sobre as abóbadas de inúmeras igrejas e que são inúteis, porque não são perceptíveis para quem vê a abóboda da nave? Como justificar o trabalho
fadigoso dos mestres do mosaico que passavam dias concebendo obras em


locais não visíveis das catedrais medievais? Se a pintura ou o mosaico não serão vistos, não serão usufruídos por olho humano algum, de que adiantou tanta dificuldade? A beleza neste caso não implica uma perda de tempo e energia? E também: qual a utilidade da beleza dos paramentos e dos vasos sagrados, se o pobre morre de fome ou não tem com que cobrir sua nudez? Essa beleza não tira recursos que deveria ser destinado ao cuidado dos mais necessitados?


E, no entanto, a beleza é proveitosa. E serve precisamente quando é gratuita, ou seja, quando brota da gratidão do coração do homem, quando não busca uma utilidade imediata, quando não depende apenas de uma finalidade prática, quando é irradiação de Deus. E quando não se sabe apreciar o valor gratuito (ou seja, da graça) da beleza, em especial da beleza litúrgica, dificilmente se conseguirá realizar um ato adequado de culto divino. Continua Von Balthasar: “Quem, ao ouvir falar dela, sorri, julgando-a como um resíduo exótico de um passado burguês, desse se pode ter certeza de que secreta ou abertamente já não é capaz de rezar e, depois, tampouco o será de amar”.





Ele insiste que o homem moderno, colocado diante do Verbo e de suas criaturas, tem de reaprender a ver aquilo que revela uma teofania, a partir da beleza transcendental. Nesta perspectiva, tanto a vida do Redentor como as maravilhas da criação aparecem em seu caráter, embora abismático, como algo sublime e majestoso, submerso no gratuito mistério do amor de Deus.


Ratzinger compartilhará do pensamento de Von Balthasar. Para ambos, a beleza da liturgia, particularmente do rito, tal e qual, corresponde à ação santificadora própria da sagrada liturgia, a qual é obra de Deus e do homem, celebração que dá glória ao Criador e Redentor e santifica a criatura redimida. Deste modo, conforme a natureza composta do homem, a beleza do rito deve ser sempre corpórea e espiritual, mostrando o visível e o invisível. Do contrário, ou se cai no esteticismo, que pretende satisfazer o gosto, ou no pragmatismo, que supera as formas nas buscas utópicas de um contato “intuitivo” com o divino. No fundo, em ambos os casos, passa-se da espiritualidade à emotividade.


O risco hoje não é tanto o do esteticismo e sim, muito mais o do pragmatismo informal. A necessidade que se tem hoje, é não tanto de simplificar e de extrair o supérfluo, mas de redescobrir o decoro e a majestade do culto divino, ou seja o seu verdadeiro espírito. Aqui a sagrada liturgia da Igreja atrairá o homem da nossa época não se vestindo cada vez mais com as vestimentas da cotidianidade anônima e cinza, a qual já está muito acostumada, mas vestindo o “manto real” da verdadeira beleza, vestidura sempre nova e jovem, que a faz ser percebida como uma janela aberta ao céu, como ponto de contato com o Deus Uno e Trino, a cuja adoração está ordenada, através da mediação de Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote.

Daqui segue-se que na celebração litúrgica não é admissível qualquer forma de minimalismo e de pauperismo. E isto, sem dúvida, não para fazer espetáculo ou  em vista de um esteticismo  vazio.  Nas  diversificadas formas  antigas e modernas em que encontra expressão, o belo constitui a modalidade própria em virtude da qual nas nossas liturgias resplandecem, ainda que de maneira sempre pálida, o mistério da beleza do amor de Deus. Eis por que motivo nunca se fará o suficiente para tornar os nossos ritos simples, enquanto claros no seu desenvolvimento, nobres e bonitos. É quanto nos ensina a Igreja, que na sua longa história jamais teve receio de “dissipar” para circundar a celebração litúrgica com as expressões mais elevadas da arte: da arquitetura à escultura, à música e às alfaias sagradas. É quanto nos ensinam os santos que, não obstante a sua pobreza pessoal e a sua caridade heroica, sempre desejaram que ao culto se destinasse quanto há de melhor. Bento XVI escreve:

As nossas liturgias da terra, inteiramente dedicadas a celebrar este gesto único da história, nunca conseguirão expressar totalmente a sua densidade infinita. Sem dúvida, a beleza dos ritos jamais será bastante requintada, suficientemente cuidada nem  muito  elaborada,  porque  nada  é  demasiado  belo  para Deus, que é a Beleza infinita. As nossas liturgias terrenas não poderão ser senão um pálido reflexo da liturgia que se celebra na Jerusalém do céu, ponto de chegada da nossa peregrinação na terra. Possam, porém, as nossas celebrações aproximar-se o mais possível dela, permitindo-nos antegozá-la.A beleza intrínseca da liturgia tem, como sujeito próprio, Cristo ressuscitado e glorificado no Espírito Santo, que inclui a Igreja no seu agir.





Com estas palavras, ele recorda de novo que a liturgia é obra do Cristo total e, por conseguinte, também da Igreja. Da afirmação que a liturgia é obra da Igreja derivam algumas considerações de não pouca importância para aquela essência da liturgia que aqui foi explicada. Com efeito, quando se diz que a Igreja constitui um sujeito que age, faz-se referência à Igreja inteira, enquanto sujeito vivo que atravessa o tempo, que se realiza na comunhão hierárquica, que é uma realidade que ainda peregrina sobre a terra e, ao mesmo tempo, uma realidade que já chegou às margens da Jerusalém celeste.


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