quarta-feira, 18 de abril de 2018

OS BENEDITINOS E A ARTE NO BRASIL

Mas, o que é o belo? Santo Tomás de Aquino, falando sobre a beleza, nos diz que “pulcrum est quod visum placet”, ou seja, “é belo o que agrada ao ser visto”. Portanto, perceber o belo é desejar para si uma perfeição, uma harmonia, uma dignidade. É desejar informar-se por um valor, que se traduz em silêncio e contemplação.


Vista aérea do Mosteiro de São Bento da Bahia
1° Mosteiro de todo o novo mundo

Na verdade, o ideal de beleza desejado pelos monges nunca esteve desvinculado de um outro ideal: o de levar aos povos o Bom, o Belo e o Eterno, que é o próprio Deus. Assim, a primitiva abadia de Monte Cassino levantou-se ao lado da “ruína” do Império Romano não apenas para conquistar outras terras e povos, mas para evangelizá-los. Por isso, após celebrar os mil anos de frutífera presença no continente europeu, os filhos de São Bento, sediados no Mosteiro de Tibães, em Portugal, resolvem “conquistar para Cristo” outros povos, desembarcando definitivamente nas terras da Bahia, em 1581. Não nos esqueçamos que a religião foi princípio norteador da unidade na consolidação da pátria brasileira nascente. Ela impôs, às diversas raças aí misturadas, um mundo de representações mentais básico, que facilmente superpõe o mundo pagão dos índios e negros, através da hagiografia, tão adequada para abrir caminho ao cristianismo a indivíduos oriundos do politeísmo. A Igreja será o “centro das manifestações onde se moldava uma alma comum”.
O anseio místico de buscar a corporeidade através da imagem da luz, como reflexo da Luz, fez surgir, no continente americano o primeiro cenóbio das Américas e as primeiras manifestações da arte beneditina no Novo Mundo. Foi de fato na pequena ermida preexistente, fora dos muros da cidade, junto às portas de santa Luzia, dedicada ao mártir São Sebastião, então voltada para as águas, a fim de proteger a Bahia dos miasmas do mar, que se fixaram desde o início os “frades bentos”, como observa o antigo abade Dom Timóteo Amoroso Anastácio (+1994), ao referir-se ao labor da ordem que é, essencialmente, fruto do tempo: do tempo real em que, no anonimato, os monges puseram mãos à obra para edificar sua  morada, e esse outro tempo ao qual subordinam seu trabalho, não passível de medida, porque é um tempo do espírito, tempo de eternidade.
Desde os primeiros anos de sua chegada a Salvador, capital da Bahia, os monges beneditinos revelaram muito critério na escolha de seus arqui- tetos, artesãos e artistas. A própria vida monástica parece ter propiciado a formação de excelentes profissionais nos quadros da Ordem. A ação desses monges estendia-se, por vezes, à obra de outras comunidades ou mesmo obras civis, como foi o caso de frei Macário de São João (+1676). Esse arquiteto espanhol foi trazido à Bahia por iniciativa de outro monge arquiteto, frei Gregório de Magalhães (1603-1667), que fora colega, na Universidade de Coimbra, do famoso beneditino frei João Turriano (1610-1679), que de 1640 a 1653 exerceu a função de arquiteto-mor de Portugal, sendo ele mesmo autor do projeto do Mosteiro da Graça (1645), em Salvador, do Mosteiro de Santos (1650), no Estado de São Paulo, e do Mosteiro da cidade de São Paulo (1598).
Entretanto, se a arquitetura beneditina brasileira dos séculos XVI e XVII é quase uma transposição daquilo que já se praticava em Portugal, podemos afirmar que ela é, antes de tudo, uma arquitetura da Contra reforma, influenciada notoriamente pela construção da Igreja de Gesù, de Roma, cujo arquiteto, Vignola (1507-1573), é considerado um dos maiores tratadistas italianos do século XVI.
A Igreja do Mosteiro de São Bento da Bahia teve sua planta visivelmente influenciada pela obra de Vignola. Seu arquiteto, frei Macário de São João, chegou ao Brasil no difícil período que se seguiu à invasão holandesa. Projetou, para o mosteiro “cabeça da congregação no Brasil”, uma igreja monumental, cuja portada sob a galilé foi assim descrita por Bazin: “o aspecto mais notável da igreja é a bela ornamentação clássica, aplicada sob a parede de fundo do pórtico; é o trabalho arquitetônico mais engenhoso do Brasil datado do século XVII”. Nesse sentido, a Igreja do Mosteiro da Bahia se difere da dos outros Mosteiros do Brasil pela sobriedade e grandiosidade de espaços. Embora sofrendo as influências do barroco nascente, a ausência das volutas barrocas, juntamente com a esplêndida iluminação que desce dos óculos de sua cúpula, a torna uma igreja majestosamente sóbria, com um gosto refinado e disciplinado, mar- cado decisivamente pela discretio beneditina. Vale ressaltar que o Mosteiro da Bahia possui uma das maiores coleções de obras de arte do Brasil, que vão de alfaias, objetos de prata e ouro, além de uma surpreendente coleção de livros raros, considerada a segunda maior do Brasil.


Evangeliário com encadernação em couro e decorado em prata
Quanto a frei Gregório de Magalhães, acima citado, sabemos que foi o responsável pelo traçado do Mosteiro de Santos, que já não se encontra em mãos beneditinas, e do de Nossa Senhora da Graça. Este último Mosteiro tem sua história intimamente ligada à da Bahia, já que sua doadora, a índia Catarina Álvares Paraguaçu, e seu marido, Diogo Álvares Caramuru, são considerados o primeiro casal cristão das terras brasileiras.
Catarina fará doação do Mosteiro da Graça em 1596, devido à sua devoção ao “Glorioso Patriarca São Bento”, nascida antes da chegada dos “monges bentos”. Da pequena ermida doada pela índia, quase nada restou, mas do mosteiro que nasceu ao lado da igreja anteriormente construída, sobraram a simplicidade espontânea imposta pelo projeto de frei Gregório de Magalhães, com claustro em arcos e igreja no estilo colonial ainda com sua torre sineira original. A Igreja da Graça é considerada o primeiro santuário mariano do Brasil.
Se a arquitetura dos mosteiros da Bahia foi marcada pelo despoja- mento quase total das talhas barrocas e rococós, o mesmo não se pode dizer do mosteiro da cidade do Rio de Janeiro. Sua igreja é uma das principais representantes do barroco brasileiro e seu conjunto arquitetônico é um dos mais belos construídos na América do Sul.
Os primórdios da história daquela abadia nos diz que foram os monges frei Pedro Ferraz e frei João Porcalho os primeiros a pisarem em terras cariocas, advindos do Mosteiro da Bahia. Chegaram ao Rio por insistência das “principais pessoas desta cidade do Rio de Janeiro”, que rogaram ao frei Antônio Ventura do Latrão, fundador do Mosteiro da Bahia e seu primeiro abade, que “lhes mandasse religiosos para nela fundarem um mosteiro a expensas das suas possibilidades”. O convite feito aos monges da Bahia mostra o grau de respeitabilidade que estes impuseram por seus laboriosos trabalhos na edificação do cenóbio baiano e seu superior grau de respeito, adquiridos pela retidão de vida de seus religiosos. Podemos considerar como data oficial da fundação do Mosteiro do Rio de Janeiro o dia 25 de março de 1590, quando da doação efetuada por Diogo de Brito de Lacerda.
O projeto do mosteiro nascente contou, em 1617, com os préstimos do grande engenheiro-mor Francisco Frias de Mesquita, a quem se deve boa parte da construção das fortalezas que permeiam as costas brasileiras. Ressaltamos que os ideais estéticos e as formas construitivísticas desenvolvidas pelos beneditinos em toda a Europa serão transferidas para as terras do além-mar, fazendo com que a arte beneditina do Brasil, direcionadas, pelos ideais de contemplação, fosse uma reprodução das experiências e acertos construtivísticos do “velho mundo”, embora apresente algumas características peculiares.
O Mosteiro do Rio, por exemplo, tem o seu conjunto monumental muito próximo dos desenvolvidos nas fortalezas portuguesas e brasilei- ras, mas a grandiosidade de sua obra está na simplicidade e bojo de uma arquitetura sóbria, quase militar, mas que trás em si um refinado gosto pelo contraste luz-sombra, marca indelével da arquitetura colonial brasileira, aqui representada por uma gestualidade construtivística aprimora- da, mas inteiramente monástica.


Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro

Coube a frei Bernardo de São Bento assumir, a partir de 1684, a direção das obras da igreja do cenóbio carioca, “ajudado da curiosidade e conhecimento de alguma geometria e princípios de arquitetura militar, na qual gastei algum tempo de estudo”, segundo ele mesmo escreveu sobre suas pesquisas. Seu depoimento é essencial para entendermos a arquitetura desenvolvida no Mosteiro do Rio. Esta, por sua vez, torna-se erudita pela dedicação de Frei Bernardo, que afirma: “aplicando-me a estas obras, e correndo muitos anos com elas, não perdendo ocasião de consultar toda a pessoa ciente e inteligente nesta matéria, gastando muitas horas de estudo, na direção dela, e no que podia colher de alguns livros que tratam desta arte”.
O depoimento de frei Bernardo nos mostra o espírito daqueles que primeiro fizeram as artes beneditinas no Brasil. Nenhum outro espírito os inspirou senão os ideais da própria vida monástica, transposta com fidelidade para as terras brasileiras. Sua humildade em consultar “pessoas cientes e inteligentes em arquitetura” denota seu espírito humilde de monge, que não faz prevalecer suas ideias, mas “o que é melhor para todos”. Ao mesmo tempo, seu espírito de homem erudito será construído por horas de leitura e trabalho laborioso, num atestado de que a vida beneditina fora implantada em terras do Brasil sob o signo da oração, do trabalho e do estudo.
No século XVIII, outro nome será associado ao Mosteiro do Rio, na pessoa do brigadeiro José Fernandes de Pinto Alpoim (1700-1765), responsável pelo feitio do claustro arcado e sua majestosa biblioteca.
Outro conjunto de espetacular mérito arquitetônico é o Mosteiro de Olinda, em Pernambuco. O Padre Arlindo Rupert, no seu livro A Igreja no Brasil, afirma que o convento fora fundado em 1590, porém, Pereira da Costa discorda, afirmando ter sido o dito Mosteiro fundado em 1592. Seja de que modo for, é certo que sua fundação se deu entre os anos de 1586 a 1592.
Após estarem hospedados na Igreja de São João Batista e na Igreja de Nossa Senhora do Monte10, começaram a construção de seu mosteiro a partir de 1597. Naturalmente, o prédio passou por uma série de modificações ao longo dos séculos, principalmente do século XVIII, até tomar suas feições atuais. É desse período a Capela-Mor, ampliada entre 1770 e 1780. Sua peça mais importante é o retábulo central, trabalho expressivo e de sensível beleza, executado por frei José de Santo Antônio Vilaça, que teve como modelo o retábulo-mor do Mosteiro de Tibães, em Portugal. Entretanto, as expressivas volutas esculpidas em madeira e revestidas de ouro refletem o gosto do barroco desenvolvido no sul da Alemanha.
Faz-se notar uma preocupação constante dos construtores que tra- balharam no prédio do dito Mosteiro em fazer transparecer, na área privada do convento, a luz resplandecente de Olinda, contrastando com o azul do mar. Esse capricho se tornou próprio dos mosteiros brasileiros, que, construídos sobre montes, tinham uma visão privilegiada do mar, demonstrando o seguimento cassinense de privilegiar os altos montes, como se esses fossem verdadeiros altares da contemplação, propiciando um contato direto com a natureza, representada aqui pela flora, pela fauna e pela proximidade do mar. Nesse sentido, todos os mosteiros têm em comum a escolha de terrenos privilegiados. Mesmo os mosteiros que não possuíam vista para o mar, como o de São Paulo, não deixaram de ter posição estratégica e de destaque dentro da topografia da cidade, com vista para rios caudalosos e visão plena do verde intenso que circundava seus muros, quando do período da construção.
No que tange à escultura religiosa brasileira, os monges beneditinos merecem destaque especial, pois sua produção não apenas seguiu o gosto estético do seu tempo; eles também produziram obras de arte de importância fundamental para as artes brasileiras, cujo refinamento pode ser contemplado até os nossos dias.
Merece especial destaque a produção artística de apurado rigor artístico de frei Agostinho da Piedade (1590-1661), cuja obra foi descoberta pelo célebre historiador beneditino alemão, monge do Mosteiro da Bahia, Dom Clemente Maria da Silva-Nigra.


Dom Clemente Maria da Silva Nigra, OSB
Fundador do Museu de Arte Sacra da UFBA

Trabalhando exclusivamente no barro cozido, frei Agostinho, oleiro de acurado rigor técnico, legou-nos uma obra de valor inestimável para a arte sacra brasileira. Suas esculturas refletem o real espírito monástico, pois o que produziu, sob um prisma de pura contemplação, está como a que convidar o observador a um profundo estado de oração. Algumas de suas peças têm a regularidade das composições renascentistas, outras, uma monumentalidade que nos faz pensar nos ícones do cristianismo dos primeiros tempos. Já o gracioso Menino Jesus de Olinda (1640), adormecido e com uma das mãos apoiando a cabeça, lembra as figuras orientais de Buda. Assim, frei Agostinho não mostra apenas o ecletismo de estilos pelos quais transitou, mas a capacidade de diálogo com diversas linguagens estilísticas, próprias de um monge erudito.


Capela- mor do Mosteiro de São Bento de Olinda

Contrastando com o caráter geral de sua obra, pela emoção e expressão transcendentes, é notável a escultura intitulada São Pedro Arrependido, do Mosteiro da Bahia. É bom lembrar que no Brasil dos primeiros tempos, o barro era visto como arte “pobre” e dos pobres. Frei Agostinho da Piedade e seu discípulo, frei Agostinho de Jesus, monge do cenóbio de São Paulo, ultrapassam o preconceito dos seus contemporâneos, produzindo em barro uma arte refinada, sendo os primeiros a produzir no Brasil, e com o barro do Brasil, obras que, de algum modo, expressam o próprio espírito da vida que levavam intra muros. Nesse sentido, os historiadores das belas-artes no Brasil consideram os trabalhos dos ceramistas beneditinos de valor inigualável, impondo características próprias às artes incipientes nas terras brasílicas. 


São Pedro Arrependido, séc. XVII 

Suas imagens têm drapeados mais leves, os gestos são mais livres, as atitudes têm mais naturalidade, as crianças são mais vivas. Ambos os Agostinhos foram contemporâneos de Bernini, embora suas obras não se juntem ao estilo barroco. O que mais evoca suas maneiras de esculpir é o estilo gótico, repousado da arte francesa do século XV, mas sob um prisma renascentista tardio.
Outro monge que merece destaque é frei Ricardo do Pilar, que para muitos equivale ao Fra Angélico da Itália. Nascido em Colônia, na Alemanha, veio para o Brasil ainda jovem, para trabalhar no Mosteiro do Rio de Janeiro, onde deixou seu valioso trabalho de pintura. Suas telas são de uma disciplina germânica sem igual no Brasil, criando um clima compatível com o misticismo que a cena retrata, mediante o hábil uso do claro--escuro. Sua mais notável obra é o Senhor dos Martírios, de quase 3 m de altura e que se encontra na sacristia do Mosteiro do Rio de Janeiro. A importância de seu trabalho é inegável, tanto assim que a quase totalidade dos críticos de arte colonial o colocam como raiz axial da escola sulista de pintura. Na verdade, os mosteiros brasileiros tiveram a preocupação de gerar entre seus monges verdadeiros artistas, para que expressassem, por meio de seus trabalhos, o sentir beneditino.
Outro conjunto arquitetônico que merece destaque é o que se formou na cidade de São Paulo. Vale dizer que no Estado de São Paulo foram fundados outros quatro mosteiros: o de Santana do Parnaíba em 1643, o de Santos em 1650, o de Sorocaba em 1660 e o de Jundiaí em 1668. Destacamos, outrossim, o Mosteiro da Capital Paulista pela pungente arquitetura que, mesmo sendo reconstruído no século XX, traz a marca da mentalidade que se imporá no monaquismo beneditino a partir de 1895.
Sua construção se deu no local onde outrora dominara Tibiriçá, o Caçador de Esmeraldas, cujos restos mortais repousam no centro de sua nova igreja. Vale lembrar que o mosteiro fundado na então pobre Vila de São Paulo foi de fundamental importância para a população local, tendo os monges bentos trabalhado “na distribuição dos sacramentos e no atendimento dos paulistas que partiam para perigosas empreitadas.
Sua igrejinha acolhia mulheres angustiadas pela ausência dos maridos, e recorriam a Deus, enquanto ouviam os monges rezarem o Ofício Divino e celebrarem a Santa Missa”.
O primitivo Mosteiro fora construído sob o traço de frei Gregório de Magalhães. Entretanto, na primeira década do século XX, todo o prédio do mosteiro será demolido para dar lugar ao atual, desenhado pelo prof. Richard Berndl, que projeta um conjunto de grande harmonia e inegável imponência e, depois, decorado pelo pintor e escultor belga Dom Edelberto Gressnight, responsável pela arte que se contempla na igreja abacial e que fora discípulo do ilustre Dom Desidério Lenz, fundador da Escola de Arte Beneditina de Beuron, no sul da Alemanha.


Abadia de Nossa Senhora da Assunção - SP

Se por um lado os monges pensavam, desenhavam e administravam os mosteiros e igrejas que iam surgindo nas principais cidades brasileiras, por outro, a parte braçal da obra cabia aos escravos. A maioria dos historiadores das artes no Brasil têm preferência em falar dos arquitetos e artistas acadêmicos. Todavia, pouco ou nada falam a respeito dos es- cravos e de sua importância no desenvolvimento do patrimônio móvel e imóvel ao longo dos séculos. Portugal conheceu a escravidão de povos africanos desde o século XV, advindos especialmente do tráfico negreiro. Ao chegarem ao Brasil, os primeiros monges não viram nenhum problema de contar com a mão-de-obra escrava para a construção de seu patrimônio imobiliário. Os “escravos da religião”, como serão conhecidos os negros que serviam às igrejas, conventos e mosteiros, estariam, assim, conforme a mentalidade da época, servindo não apenas aos senhores temporais, mas ao próprio Senhor dos homens.
Deve-se a eles, e aos tantos outros mestres-de-obras que se sucederam ao longo dos séculos, a locomoção das pedras, a produção da argamassa, a produção da cal, o fabrico de ferramentas em metal, e muitos outros serviços que prestaram na qualidade de cativos. Os mosteiros brasileiros chegaram a ter juntos, só para citar o século XVIII, mais de 3 mil cativos.
Não há dúvida, finalmente, de que esses diversos negros sejam responsáveis, mesmo que não tivessem consciência do fato, pelo crescimento extraordinário do patrimônio monástico ao longo dos séculos, seja transportando cargas para a construção das igrejas e conventos, seja como pedreiros, carpinteiros, ferreiros, entalhadores, serventes, ou mesmo como artistas anônimos, cujos nomes se perderam, mas cujo reconhecimento é meritório.


Referências bibliográficas

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PENIDO, Basílio. Beneditinos em Olinda. São Paulo: Raízes Artes Gráficas,1986.
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ROCHA, Paulo. 400 anos do Mosteiro de São Bento da Bahia. São Paulo, Her- mes Rocha, 1982. São Bento de Núrsia. A Regra de São Bento. Tradução de Dom Gregório Paixão. Salvador: Edições São Bento, 2004.
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VALLADARES, Clarival do Prado. Nordeste histórico e monumental, vol. IV. Salvador: Odebrecht, 1991, p. 82-351.
ZAMITH, Joaquim de Arruda. Mosteiro de São Bento – São Paulo. São Paulo: Círculo do Livro, 1988.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Dom Lamberto Schmieder, OSB Construtor do cadeiral do Mosteiro de São Bento da Bahia


O Mosteiro de São Bento da Bahia representa um dos mais importantes monumentos artísticos produzidos no País na época colonial. Nele, encontram-se obras de arte que traduzem todo um sistema de valores de uma época, cujo estudo crítico é imprescindível para a compreensão do processo histórico e cultural que marcou tão profundamente o caráter do povo brasileiro.
Grandes estudiosos já se debruçaram sobre esta jóia do neoclássico, escrevendo livros sobre este mosteiro. 
Devem ser lembrados os nomes de Dom Clemente da Silva-Nigra, Dom Gregório Müller, Dom José Lohr Endres e o artista Irmão Paulo Lachenmayer que colaborou na ilustração de tantas obras, para ficarmos entre aqueles que se destacaram no campo da arte. Todavia, apesar da excelência do trabalho já produzido até aqui, muito ainda há por ser revelado aos olhos de quem se interessa pela arte, pela cultura e pelos vários significados religiosos de que é depositário este monumento. São muitas as leituras que o Mosteiro permite ao pesquisador atual. Particularmente em relação ao aspecto simbólico da obra religiosa, ainda se tem por fazer todo um trabalho, com a erudição e a sensibilidade que o assunto impõe.
A história às vezes se esquece de guardar para as gerações futuras a memória de personagens importantes por sua vida ou por seus feitos sendo assim falaremos de um irmão que ficou esquecido nos anais nos relatos do mosteiro baiano, o objetivo nesse artigo resgatar a memória de Dom Lamberto Schmieder, OSB monge deste Mosteiro de São Bento da Bahia.









Nasceu em Seefelden perto de Milheim. Baden, Alemanha em 26 de abril de 1885, filho de José Schmieder e Madalena Luhr. Esse monge alemão entrou na Ordem de São Bento no Mosteiro de Beuron em 4 de abril de 1910 tendo recebido o hábito e entrando no noviciado em 14 de agosto de 1911, veio para o Brasil em 17 de dezembro de 1911, afilhando-se à comunidade de Santa Cruz de Quixadá no Ceára em 28 de dezembro de 1912 lá professando os votos em 1 de março de 1914, nas mãos do Rev.mo Dom Ruperto Rudolf abade do dito mosteiro.


Ir. Lamberto Schmieder, OSB
Fonte: Arquivo do Mosteiro de São Bento da Bahia, século XIX.


Passaporte de Ir. Lamberto Schmieder, OSB

Fonte: Arquivo do Mosteiro de São Bento da Bahia, século XIX.


No ano dia 2 de outubro de 1915 por ordem superior chega a Bahia e em 13 de abril de 1921 e transfere sua estabilidade com toda a sua comunidade para o mosteiro de Salvador. Em 1 de março de 1939 Ir. Lamberto celebrou seu jubileu de prata e em 1 de março de 1964 celebrou seu jubileu de ouro, isso nos atesta o manuscrito de Dom José Edres:



Ficha bibliográfica de Ir. Lamberto Schmieder,OSB
Fonte: Arquivo do Mosteiro de São Bento da Bahia, século XIX.


Antes do Concílio Vaticano II nos mosteiros havia uma divisão de monges de coro e Irmãos donados o primeiro se dedicava a oração e ao estudo enquanto o segundo se dedicava a oração e o trabalho, assim sendo muitos irmãos se santificaram plenamente prova disso é o horário pessoal traçado minuciosamente por Irmão Lamberto descrevendo em sua sua rotina monástica onde descreve os oficios que exerce no mosteiro:

Horário pessoal de Ir. Lamberto Schmieder, OSB
Fonte: Arquivo do Mosteiro de São Bento da Bahia, século XIX.


Mas se dúvida, o mas primoroso de seus trabalhos encontra-se no legado artístico que fez com suas mãos e hoje é herança viva para as futuras gerações. Apesar de não dispormos de documentação referente a feitura do cadeiral, temos por base o legado da tradição da comunidade beneditina na informação verbal. A encomenda do cadeiral do coro do mosteiro de São Bento não poderá jamais dissociar-se de uma figura fundamental: o próprio Dom abade Majolo de Caigny. Foi feito o atual cadeiral em madeira pau-ferro foi trazido da Alemanha. 
 D. Lamberto que era marmorista pediu que para feitura do mesmo se trouxesse a madeira mas dura para que ele pudesse talhar. Posteriormente a madeira ganhou uma tonalidade mas escura. A disposição dos lugares no cadeiral segue a orientação da Regra de São Bento no que toca a organização da comunidade monacal “Portanto, segundo a ordem que ele tiver estabelecido ou que tiverem os irmãos, apresentem-se estes para a Paz, para a comunhão, para entoar os salmos, para estar no coro”. Encontramos o lugar do Abade, Prior e Subprior e dos demais membros de acordo com seu tempo de vida monástica.



Lembrança da missa de exéquias 


Lapide sepulcral no cemitério 
Claustral do Mosteiro de São Bento da Bahia






terça-feira, 12 de setembro de 2017

Quem foi São Bento?

São Bento (Retabulo do Mosteiro de Nossa Senhora do Monte Serrat em Salvador- BA)
Já se somam 15 séculos de uma espiritualidade monástica que sobrevive em meio ao apogeu das guerras, ao avanço das fábulas e ideologias que se espalharam por todo mundo após a queda do império romano. O pai dessa espiritualidade é um dos santos mais importantes para a Igreja, São Bento de Núrsia uma coluna que sustentou a Igreja na idade média, tão importante que no ano de 1964 o Papa Paulo VI o proclamou patrono da Europa ou como pai da Europa como dizia Pio XII.


São Bento (Altar mor do Mosteiro de São Bento de Olinda -PE)

Com o passa do tempo encaminhou-se só para um lugar deserto e distante chamado Subiaco onde segundo ouvirá vivia alguns monges em santa austeridade, lá encontrou um desses eremitas chamado Romano este monge admirou-se do fervor religioso do jovem e de sua disposição ofereceu para ajuda-lo, assisti-lo e ajudar em seu projeto e fazer tudo o, mas que lhe fora possível, Bento aceitou a oferta com entusiasmo e recebeu dele o hábito religioso depois foi conduzido a uma caverna extremamente escondida e quase inacessível que a natureza modelou encravada no rochedo. Neste lugar Bento permaneceu durante três anos em meditação, penitência, oração e contemplação com o pobre alimento que lhe fornecia Romano e chegava na gruta numa cesta descida por uma corda longe dos homens da civilização despojado de tudo na solidão e no silêncio.

São Bento escrevendo a Regra Beneditina, retrato na igreja da abadia de Heiligenkreuz, perto de Baden bei Wien, Baixa Áustria. Retrato (1926) de Herman Nieg

Ao longo do tempo Deus suscitou jovens de vários meios da sociedade para seguirem o mesmo ideal de São Bento, fazendo com que ele fundasse novas comunidades e instituísse abades para as mesmas. A mais famosa e radiosa foi a sua própria, localizada na região de  Cassino. O mosteiro de Monte Cassino foi onde São Bento se fixou com seus discípulos e onde teve suas experiências místicas mas marcantes escrevendo a sua regra de vida, disposta em 73 capítulos. Findando sua missão no mesmo ano de 547.
São Bento que resiste à Tentação pela Oração e Penitência

São bento (Retabulo da Capela-mor do Mosteiro de São Bento da Bahia - BA)



sexta-feira, 30 de junho de 2017

Frei Domingos da Transfiguração Machado: Restaurador da Congregação Beneditina do Brasil

No século XIX a Congregação Beneditina do Brasil viu seus claustros outrora nascidos da venerável Congregação Lusitana serem invadidos pelo mal da secularização. A seiva verde e abundante da semente do monaquismo que nossos fundadores semearam nestas paragens fora secando de forma assustadora por decreto régio imperial.





A proclamação da Independência do Brasil em 1822 interrompeu as relações dos mosteiros brasileiros com a Congregação de São Bento de Portugal. Em 1827 a Santa Sé constitui a Congregação Beneditina do Brasil e a Abadia de São Sebastião de Salvador torna-se a nova sede. Entre 1893 e 1896, o Mosteiro de Olinda dá início à restauração da vida beneditina brasileira, aniquilada pela política do Governo Imperial e pelo fechamento dos noviciados em 1855. Em conseqüência das leis que desde o tempo de Pombal proibiam as congregações religiosas de receberem noviços, os claustros do Brasil ficaram desertos, diminuindo consideravelmente o número de candidatos a monge. Neste ínterim, surgi uma figura emblemática Frei Domingos da Transfiguração Machado.


O Beneditino alemão Michael Emilio Cherer em seu livro “Frei Domingos da Transfiguração Machado nos apresentar um panorama bem vasto da pessoa de Frei Domingos desde sua biografia até a pormenores da obra da Restauração Beneditina Brasileira empreendida por Frei Domingos. O Dietário dos Monges do Mosteiro de São Bento da Bahia narra sua vida e obra: Nascido em Santo Amaro de Catu, na Ilha de Itaparica, em 16 de novembro de 1824.


















Com 18 anos incompletos adentrou os umbrais da Ordem de São Bento no Mosteiro de São Bento da Bahia no dia 13 de junho de 1842. No Capítulo Geral da Congregação realizado em 7 de maio de 1890, foi eleito Abade Geral.



Frei Domingos autoria de Lopes Rodrigues


Poucos momentos depois da eleição chegou a ouvir da boca de um dos monges: “Este será o couveiro da congregação”. Entretanto a Providência Divina não abandona aqueles que nela confiam, o “frágil” abade foi o lápis de Deus neste momento de crise em que um dos galhos da Ordem de São Bento ameaçava quebra.
Frei Domingos da Transfiguração Machado pediu a Santa Sé que enviasse monges do além-mar para restaurar os Mosteiros Brasileiros, desse modo o grupo escolhido foi a Congregação de Beuron, ramo novo beneditino mas que se pautava no zelo pela liturgia, canto, os costumes monásticos e que já estava bem solidificado na Europa.





Nossa Gratidão aos Monges Beuronenses que aqui lembramos na pessoa do Reverendíssimo Padre Mestre, Gerardo Van Caloen,OSB que sucedeu Frei Domingos no governo da Congregação.




Frei Domingos faleceu no dia 1 de julho de 1908. Sua sepultura encontra-se na capela-mor da Basílica de São Sebastião do Mosteiro de São Bento da Bahia. Ao falecer tinha 84 anos de idade, sendo o nosso Dom Abade o Muito Reverendíssimo Padre Mestre, Dom Majolo de Caigny.


Lapide de Frei Domingos da Transfiguração Machado 


segunda-feira, 26 de junho de 2017

Breve relato da presença beneditina no Brasil


Os monges beneditinos vieram ao Brasil, originários de Portugal, em 1575, para analisar a viabilidade de estabelecerem um mosteiro em terras brasileiras. O local escolhido foi Salvador, na Bahia, cidade fundada em 29 de março de 1549 com a chegada de Tomé de Souza, primeira capital do Brasil, onde fora celebrada a primeira Missa pelo padre Manoel da Nóbrega e onde se estabelecera a primeira família cristã registrada: Diogo Álvares Caramuru, Fidalgo da Casa Real de D. João III de Portugal, que ali chegara em 1509, e sua mulher, a índia da tribo Tupinambá, Paraguassu, batizada em 30/07/1528, em Saint-Maio na França, com o nome de Katherine du Brèsil (Catarina do Brasil). A comunidade que então se formara pedia a presença dos monges.
Em 1580, o Capítulo Geral da Congregação Lusitana da Ordem de São Bento, reunido no Mosteiro de São Tirso, aprovou a fundação do Mosteiro de São Bento da Bahia, que viria a ser o primeiro do Novo Mundo. Na Páscoa de 1582- Padre Frei Antônio Ventura do Latrão e alguns monges, oriundos do Mosteiro de São Martinho de Tibães, Casa Geral da Congregação Lusitana, chegaram à Bahia, estabelecendo-se numa pequena Ermida dedicada a São Sebastião, num terreno fora da cidade.

Abadia de São Martinho de Tibães

Em 1584, o Mosteiro de São Sebastião da Bahia, mais conhecido como Mosteiro de São Bento da Bahia, foi elevado à categoria de Abadia. Em 1586, recebeu de Catarina Paraguassu, em doação, a Ermida de Nossa Senhora da Graça, por ela construída em 1530, com o edifício anexo. Com isso foi fundado o Mosteiro de Nossa Senhora da Graça como dependência da abadia baiana. Desta forma consolidaram-se o Mosteiro de São Bento da Bahia e os primeiros beneditinos no Brasil.


Os monges baianos partiram, então, para fundar novos mosteiros em outras cidades da colônia, cujos moradores demandavam a presença beneditina. Assim surgiram os Mosteiros das cidades de Olinda em 1586, do Rio de Janeiro em 1590, da Paraíba em 1596 e de São Paulo em 1598.
Em 1596, o Mosteiro da Bahia recebe o título de Arquicenóbio do Brasil. É criada a Província Brasileira da Congregação Lusitana, tendo como Casa Geral a Abadia de São Sebastião da Bahia. Nesse mesmo ano os mosteiros de Olinda e Rio de Janeiro são elevados à condição de Abadia.
Em 1° de julho de 1827, o Papa Leão XII declarou desmembrados da Congregação Lusitana os Mosteiros do Brasil, tornando-os independentes sob a denominação de Congregação Beneditina Brasileira, por meio da Bula “Inter gravissima”.

Vista aérea do Mosteiro de São Bento da Bahia

Por ser o Mosteiro que deu origem à Congregação Beneditina Brasileira, o Papa João Paulo II concedeu ao Mosteiro da Bahia, em 1998, o título de Arquiabadia da Congregação Beneditina do Brasil.

domingo, 18 de junho de 2017

A LITURGIA E A ARTE

“A liturgia é a vida tornada Arte, dizia Romano Guardini. O que é a força para a vida ativa, é a beleza para a vida contemplativa da Igreja. A Igreja o é somente uma estrutura para fins práticos, mas também plena de sentido em si mesma, é vida que se torna arte. E esta arte é manifestada na liturgia.




Uma determinada coisa é bela quando a sua essência e significação íntimas são expressas de modo total no seu ser. É nessa “expressão total” que reside a beleza. Pulchritudo est splendor veritatis est species boni, dizia a filosofia antiga: “A beleza é o esplendor perfeito que revela a verdade essencial e o bem interior do ser.


A linhagem agostiniana de Ratzinger também se manifestou na atenção que ele presta à beleza. Embora o tenha tratado esse tema como uma questão acadêmica, em tudo o que escreveu sobre a beleza fica implícito a preferência pelas linhas seguidas por Santo Agostinho, Jean de la Rochelle, São Boaventura, Hans Urs von Balthasar.

Ao contrário de tantos outros que, pelo menos no contexto litúrgico, estão impregnados da atitude kantiana, a qual apresenta a estética como mera questão de gosto, Ratzingero considera que a categoria da beleza seja algo exterior à teologia. Não obstante, em sua primeira Exortação Apostólica, a Sacramentum Caritatis, o papa Bento XVI assevera que “tudo o que se refere à Eucaristia deve ser identificado pela beleza”. Ele lembra aos sacerdotes e fiéis que “a liturgia, como aliás a revelação cristã, tem uma ligação intrínseca com  a beleza:  é esplendor da  verdade  (veritatis  splendor).  Citando  São Boaventura, ele escreve: “em Jesus,s contemplamos a beleza e o esplendor das origens” e isto não é visto “como mero esteticismo, mas como modalidade com que a verdade do amor de Deus em Cristo o alcança, fascina e arrebata, fazendo-nos sair de nós mesmos e atraindo-nos assim para a nossa verdadeira vocação: o amor. Aqui ele reitera a visão de São Boaventura de que Deus permite seja Ele vislumbrado, antes de tudo, na criação, na beleza e na harmonia do cosmos. Com refencia à experiência de Pedro, Tiago e João na Transfiguração, ele sustenta que a beleza o é um fator decorativo da ação litúrgica, mas seu elemento constitutivo, como atributo do pprio Deus e da sua revelação, ou seja, a beleza para ele, é um elemento essencial à ação litúrgica, pois pertence ao Mistério de Deus, “é expressão excelsa da glória de Deus e, de certa forma, constitui o céu que desce à terra.


Ratzinger se afasta das tradições protestantes e também daqueles que, dentro da ppria Igreja, têm aceitado a crença protestante de que a beleza é preocupação de fariseus, ou aquilo no qual se acredita a teologia da libertação: que um amor à beleza está vinculado à indiferença burguesa pela miséria dos pobres. Ele tem empatia com a revencia protestante pelas Escrituras e por seu foco na Cristologia, mas o se identifica com a hostilidade protestante contra a beleza. Como von Balthasar escreveu: qualquer pessoa que seja enamorada da beleza treme de frio no celeiro da Reforma e se sentirá atraídpor Roma.



Não obstante, um dos problemas atuais é que a pobre alma mediana, que está tremendo no celeiro da Reforma, encontrará o mesmo frio no celeiro de muitas paquias católicas. A partir desta perspectiva, a preocupação com o belo não é  um problema que  surgiu somente após o Concílio, e não foi por culpa da “nobre simplicidade pedida por ele, mas por s  interpretaçõedos  documentos  conciliares  e  de  pensamentos  que surgiram antes do Vaticano II.


Balthasar, na introdução ao primeiro volume de sua obra monumental Herrlichkeit (Glória), na qual desenvolveu uma teologia sistemática focada na importância da beleza, escreve:


A beleza é a última palavra que o intelecto pensante pode atrever-se a pronunciar, porque esta não faz outra coisa a não ser coroar, como auréola de esplendor inapreensível, a estrela dupla da verdade e do bem e sua relão indissolúvel. Esta é a beleza altruísta, sem a qual o velho mundo era incapaz de ser compreendido, mas que deixou, na ponta dos pés, o moderno mundo dos interesses, abandonando-o à sua cobiça e tristeza. Esta é a beleza que já não é amada ou mesmo guardada pela religião, mas como máscara arrancada de seu rosto, revela os tros que ameaçam ser incompreensíveis para os homens. Esta é a beleza em que já não ousamos acreditar e que transformamos em aparência para que possamos nos libertar dela sem remorsos. Esta é a beleza, enfim, que requer (como é demonstrado hoje), pelo menos na coragem e força de decisão da  verdade  e  da  bondade,  e que  não  se  deixa  reduzir  ao ostracismo e separar dessas suas duas irmãs sem arrastá-las consigo em uma misteriosa vingança.


São palavras de clara condenação, por parte de um tlogo bem moderno”, do espírito funcionalista típico da modernidade, que é incapaz de apreciar o valor das coisas belas que o tenham um reflexo imediato no campo da utilidade. Como compreender hoje o valor dos detalhes minuciosos que os artistas traçaram sobre as abóbadas de inúmeras igrejas e que são inúteis, porque o são perceptíveis para quem vê a abóboda da nave? Como justificar o trabalho
fadigoso dos mestres do mosaico que passavam dias concebendo obras em


locaiso visíveis das catedrais medievais? Se a pintura ou o mosaico não serão vistos, o serão usufruídos por olho humano algum, de que adiantou tanta dificuldade? A beleza neste caso não implica uma perda de tempo e energia? E também: qual a utilidade da beleza dos paramentos e dos vasos sagrados, se o pobre morre de fome ou não tem com que cobrir sua nudez? Essa beleza o tira recursos que deveria ser destinado ao cuidado dos mais necessitados?


E, no entanto, a beleza é proveitosa. E serve precisamente quando é gratuita, ou seja, quando brota da gratio do coração do homem, quando não busca uma utilidade imediata, quando o depende apenas de uma finalidade prática, quando é irradiação de Deus. E quando não se sabe apreciar o valor gratuito (ou seja, da graça) da beleza, em especial da beleza litúrgica, dificilmente se conseguirá realizar um ato adequado de culto divino. Continua Von Balthasar: “Quem, ao ouvir falar dela, sorri, julgando-a como um resíduo exótico de um passado burgs, desse se pode ter certeza de que secreta ou abertamente já não é capaz de rezar e, depois, tampouco o sede amar.





Ele insiste que o homem moderno, colocado diante do Verbo e de suas criaturas, tem de reaprender a ver aquilo que revela uma teofania, a partir da beleza transcendental. Nesta perspectiva, tanto a vida do Redentor como as maravilhas da criação aparecem em seu caráter, embora abismático, como algo sublime e majestoso, submerso no gratuito mistério do amor de Deus.


Ratzinger compartilha do pensamento de Von Balthasar. Para ambos, a beleza da liturgia, particularmente do rito, tal e qual, corresponde à ação santificadora própria da sagrada liturgia, a qual é obra de Deus e do homem, celebração que dá glória ao Criador e Redentor e santifica a criatura redimida. Deste modo, conforme a natureza composta do homem, a beleza do rito deve ser sempre corpórea e espiritual, mostrando o visível e o invisível. Do contrário, ou se cai no esteticismo, que pretende satisfazer o gosto, ou no pragmatismoque supera as formas nas buscas utópicas de um contato intuitivo com divino. No fundo, em ambos os casos, passa-se da espiritualidade à emotividade.


O risco hoje o é tanto o do esteticismo e sim, muito mais o do pragmatismo informal. A necessidade que se tem hoje, é não tanto de simplificar e de extrair o supérfluo, mas de redescobrir o decoro e a majestade do culto divino, ou seja o seu verdadeiro espírito. Aqui a sagrada liturgia da Igreja atrairá o homem da nossa época o se vestindo cada vez mais com as vestimentas da cotidianidade anônima e cinza, a qual está muito acostumada, mas vestindo o manto real” da verdadeira beleza, vestidura sempre nova e jovem, que a faz ser percebida como uma janela aberta ao céu, como ponto de contato com o Deus Uno e Trino, a cuja adoração está ordenada, através da mediação de Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote.

Daqui segue-se que na celebração litúrgica o é admissível qualquer forma de minimalismo e de pauperismo. E isto, sem vida, não para fazer espetáculo oem vista de um esteticismo  vazio.  Nas  diversificadas formas  antigas e modernas em que encontra expressão, o belo constitui a modalidade ppria em virtude da qual nas nossas liturgias resplandecem, ainda que de maneira sempre lida, o mistério da beleza do amor de Deus. Eis por que motivo nunca se fa o suficiente para tornar os nossos ritos simples, enquanto claros no seu desenvolvimento, nobres e bonitos. É quanto nos ensina a Igreja, que na sua longa história jamais teve receio de “dissipar” para circundar a celebração litúrgica com as expressões mais elevadas da arte: da arquitetura à escultura, à música e às alfaias sagradas. É quanto nos ensinam os santos que, o obstante a sua pobreza pessoal e a sua caridade heroica, sempre desejaram que ao culto se destinasse quanto há de melhor. Bento XVI escreve:

As nossas liturgias da terra, inteiramente dedicadas a celebrar este gesto único da história, nunca conseguirão expressar totalmente a sua densidade infinita. Sem dúvida, a beleza dos ritos jamais será bastante requintada, suficientemente cuidada nem  muito  elaborada,  porque  nada  é  demasiado  belo  para Deus, que é a Beleza infinita. As nossas liturgias terrenas não poderão ser senão um pálido reflexo da liturgia que se celebra na Jerusalém do céu, ponto de chegada da nossa peregrinação na terra. Possam, porém, as nossas celebrações aproximar-se o mais possível dela, permitindo-nos antegozá-la.A beleza intrínseca da liturgia tem, como sujeito próprio, Cristo ressuscitado e glorificado no Espírito Santo, que inclui a Igreja no seu agir.





Com estas palavras, ele recorda de novo que a liturgia é obra do Cristo total e, por conseguinte, também da Igreja. Da afirmação que a liturgia é obra da Igreja derivam algumas considerações de o pouca importância para aquela essência da liturgia que aqui foi explicada. Com efeito, quando se diz que a Igreja constitui um sujeito que age, faz-se refencia à Igreja inteira, enquanto sujeito vivo que atravessa o tempo, que se realiza na comunhão hierárquica, que é uma realidade que ainda peregrina sobre a terra e, ao mesmo tempo, uma realidade que chegou às margens da Jerusalém celeste.