Miserere Mei, Deus

terça-feira, 25 de junho de 2019

Elementos Iconográficos do Retábulo do Altar da Capela - mor do Mosteiro de São Bento da Bahia


A Ordem de São Bento é a primeira grande ordem monástica da Igreja do Ocidente. Os beneditinos estão implantados no noroeste da península Ibérica desde o séc. XI ainda antes de Portugal existir como nação independente. Os Mosteiros das ordens religiosas funcionavam como coluna vertebral da conquista cristã e recebiam com isso os favores dos reis católicos, mas foi a partir do século XVI quando foi escolhido como sede da Congregação de São Bento de Portugal e do Brasil que o Mosteiro de Tibães cresceu em prestígio e esplendor.


Vista do altar - mor da Igreja do Mosteiro de São Bento da Bahia,Século XIX
Fonte: Arquivo do Mosteiro de São Bento da Bahia

No século XVI, aportaram na Bahia de Todos os Santos os primeiros monges beneditinos que viam da suntuosa Abadia de São Martinho de Tibães. Os monges bentos como eram chamados vieram para fundar na Terra de Santa Cruz após 81 anos do “descobrimento” o primeiro Mosteiro de todo o novo mundo. Essa fundação é motivada pelo impulso missionário além-mar, incentivado pelo Concílio de Trento. Assim os beneditinos trouxeram todo o seu amplo conhecimento e cultura para a construção do novo Mosteiro usando toda a beleza e funcionalidade da arquitetura para a construção da nova casa, Calmon nos apresenta o panorama histórico:

A primeira ordem regular estabelecida no Brasil depois da Companhia, foi a de São Bento. Vimos os primeiros dêsse hábito às voltas com a conquista da Paraíba. Constou no Capítulo da mesma comunidade celebrado em Lisboa, em 1581, o pedido dos moradores da Bahia, para que viessem instalar-se aqui “monges desta nova reforma para sua consolação”. Realmente foram acolhidos com grande deferência e lhes deu o bispo a ermida de São Sebastião, já existente na rampa fronteira à porta da cidade, que se chamou de São Bento onde se elevou, enorme e rico mosteiro, que subsiste. No ano seguinte logravam os beneditinos as preferências da velha Catarina Àlvares, que em testamento (diferente de Caramuru, amigo dos Jesuítas), lhes legou as terras adjacentes da ermida de Nossa Senhora da Graça…[1]

A arte foi a mais poderosa arma que a Igreja Católica esgrimiu na guerra contra o movimento protestante. No início do século XVI, o sacerdote e teólogo alemão Martinho Lutero atacou severamente a veneração às imagens dos santos. Assim reagindo à ameaça, o Papa Paulo III convocou em meados do século XVI o Concílio de Trento, atribulado, o Concílio durou 18 anos e ficou conhecido como “Concílio da contra reforma”, deu início a uma serie de diretrizes que visavam a reafirmar e reforçar os dogmas e a disciplina dentro da Igreja Católica: a saber as imagens de Cristo, da Virgem e dos Santos eram utilíssimas para o culto num mundo onde a esmagadora maioria não sabia ler. A arte é a expressão plástica dos ideais católicos da contra reforma, pois é com imagens que também se instrui o povo por que o povo vê com o coração. A exuberância dos símbolos religiosos era a melhor forma de honrar a Deus, de persuadir e de aumentar o exército de crentes.
Ao edificarem a Igreja do Mosteiro de São Bento da Bahia os monges beneditinos legaram-nos um dos exemplares mais preciosos da história patrimonial. Ao construírem o seu templo e ao exprimirem a sua fé através das expressões artísticas que para aí criaram atingiram um sublinhar estreito entre a liturgia e a arte e conseguiram que o seu mundo cultual se transformasse num mundo cultural
O atual templo dos monges Beneditinos da Bahia foi erigido de acordo com a planta do Irmão Donato Frei Macário de São João, este membro da comunidade veio junto com o grupo de Monges fundadores liderados pelo Frei Antônio Ventura, primeiro Abade do mosteiro nascente, assim cita Dom Gregório Müller:

“Idealizou a planta do novo edifício um membro da comunidade, o irmão Donato Fr. Macário de São João, do qual guarda o “Dietário” a seguinte memória: Fr. Macário de S. João trabalhou no ofício da arquitetura até morrer com grande zelo e desvelo... Deixou disposta em parte a planta deste mosteiro e da igreja nova com clareza necessária para sua execução. Faleceu aos 3 de abril de 1676. ”[2]


A Basílica dedicada ao mártir São Sebastião que está em destaque ao centro do retábulo aparece, Santo que dá nome à Basílica, nascido na Narbona, na Gália, e que foi centurião romano. É representado com a cara rapada e semblante juvenil, amarrado a um tronco de árvore, sofrendo o martírio das flechas, lenço cobrindo parte do corpo e por trás das pernas suas vestes de guerreiro.
Imagem de São Sebastião
Patrono da Basílica do Mosteiro de São Bento

Foi construída ao longo de vários abaciados, isso ocorreu por diversos motivos dentre eles a falta de recursos financeiros. A construção da mesma iniciou-se em 1680. A construção do atual retábulo - mor e de toda a igreja do mosteiro vêm da mentalidade da época de que tudo o que Deus nos dar para Ele deve se converter, é um testemunho que nada é demais para a casa de Deus. A chegada do conjunto do altar coincide com a substituição dos retábulos de madeira policromada e dourada pelo mármore, cujas mudanças começaram a ocorrer na segunda metade do séc. XIX. Assim nos diz Freire em relação a esta mudança estilística:

Ao longo do século XIX as irmandades, ordens terceiras e algumas ordens de religiosos regulares empreenderam reformas no interior de seus edifícios “[...] que consistiram no desmonte e destruição da antiga ornamentação em madeira entalhada, policromada e dourada erigida no século XVIII, e na substituição por outra ornamentação que fosse mais adequada à concepção estética e cultural daqueles novos tempos”. Destaca que o período mais frutífero em todo esse processo deu-se na primeira metade dos oitocentos, coincidindo com “[...] a vigência do primeiro período de prosperidade econômica, os 20 anos de depressão e fase posterior de recuperação”. Sendo prejudicada pela última fase de depressão acontecida de 1865 a 1888.[3]

O atual retábulo, que é o nosso principal objeto de estudo foi inaugurado e aberto ao público no dia 11 de julho de 1871, justamente segue o programa arquitetônico devido do Concílio Tridentino de que os santos deveriam ter o seu lugar de destaque, e assim vemos as figuras de São Bento e Santa Escolástica cada uma em seu nicho individual que é coroado com uma abóboda ou semi-cúpula. E ao centro São Sebastião trazendo em seus pés os atributos que o distingue como soldado romano (espada, armadura, capacete). O altar-mor com o respectivo retábulo, segundo a nota de encomenda e compra existente no arquivo do arquicénobio baiano, foi encarregada da execução a casa Fratelli Sechino, em Gênova – Itália, assim trata a cronica religiosa:


Esta obra monumental fôra continuada pelo plano primitivo, em 1854, sendo D. Abbade deral o padre-mestre Fr. Saturnino de Santa Clara Antunes, que governou até 1860, deixando encomendado altar e retabulo de pedra, de que foi incumbido o finado negociante Sechino, eu o fizera aos melhores esculptores da Italia, do mais fino marmore.[4]


Está à capela-mor toda ladeada por trígrifo elemento arquitetônico da arte neoclássica derivado dos templos gregos que demarcava o espaço onde era adorado o deus ou a deusa. Já na cultura cristã ele demarca o espaço do Deus dos cristãos. O programa ornamental do retábulo é neoclássico arqueológico, ou seja, os padrões que foram encontrados nas escavações presentes em Herculano e Pompeia.


Projeto do teto da capela - Mor com as tribunas, Século XIX

Fonte: Arquivo do Mosteiro de São Bento da Bahia


O conjunto escultórico em mármore de carrara foi trazido do além-mar (Itália) trázido desmontado em conjuntos de peças e aqui montado, tendo suas bases de alvenaria. Inspirado na cultura neoclássica apresenta elementos próprios da ornamentação do mundo grego e da arte cristã. Prender-nos-emos ao significado dos elementos no tocante à arte cristã. Erguem-se quatro colunas de ordem compósita, com frisos decorados com folhas de acanticas, frutos, pássaros, grinaldas e seres fantásticos. Assim sendo, a folha de acanto tem o significado da vitória daqueles que permaneceram fiéis ao seguimento de Cristo. O tratamento no chão da capela - mor é ricamente ilustrado com figuras geométricas.
Detalhe da ornamentação da coluna do retábulo

O chão da capella maior está todo ladrilhado á pedra mármore formando estrelas, e o mesmo ladrilhado continua em grande parte da nave, que depois de concluída a obra deve fica do mesmo modo ladrilhada. O mármore da obra da capella, mão-de-obra de tudo que está feito orça em mais de 300 contos de reis.
Ornamentação do chão da capela - mor 
Mosteiro de São Bento da Bahia

Na base do retábulo encontram-se quatro brasões em alto-relevo com atributos direcionados para a Sagrada Escritura e as celebrações litúrgicas ali realizadas. No primeiro brasão, vêem-se as tábuas dos dez mandamentos, uma cruz, ao fundo um ramo de palmeira e os três elementos envolvidos no ramo da figueira, no segundo temos um castiçal, um cálice, uma pala, um turibulo e a palma da palmeira com o ramo da videira envolvida nos objetos, na quarta: uma custódia, uma naveta e uma cruz grega, um lecionário envolvido por uma estola, mitra e báculo.
Ao olhar para o arco do triunfo que coroa o retábulo visualiza-se três figuras: Fé, Esperança e Caridade. Tais virtudes são chamadas de virtudes teologais e as encontramos na Sagrada Escritura no capítulo primeiro da Carta de São Paulo aos Coríntios. São elas virtudes sobrenaturais que todo cristão deve se esforçar a praticar em sua vida. Essas virtudes foram exaltadas na decoração das igrejas sobretudo no século XIX, para acentuar o combate contra os vícios capitais. De acordo com Freire (2006, p.419) “A alegoria das virtudes teologais foram as mais constantes e enfatizadas na talha baiana do Oitocentos. Isso porque são as principais virtudes e representam a essência da mensagem que a Igreja Católica desejava transmitir para os seus fiéis”.
Detalhe da liturgia na capela - mor

A mesa do altar-mor hoje deslocada de seu local original junto ao retábulo por conta das mudanças litúrgicas do Concílio Vaticano II, apresenta uma série de elementos tais como as tradicionais folhas de acanto. Depois nos lados folhas de videira e trigo ambas remetendo-se a simbologia eucarística do pão e do vinho. Ainda pavões nas laterias da mesa do altar significam a beleza do paraíso e finalmente ao centro do altar-mor a figura do pelicano ave enigmática que na simbologia cristã é referência do sacrifício de Cristo por toda humanidade ferida pelo pecado. 


Resultado de imagem para altar mor dos beneditinos pelicano






No alto nas paredes laterais da capela temos seis tribunas coroadas com rocailles conchas. Completa a ornamentação da capela os duas telas de grandes proporções de São Gregório Magno e Santa Hidelgardes encomendados em 1880 ao pintor genovês Paolo A. Ferraro.


Detalhe do quadro de Santa Hildegardes 
e o cadeiral monástico.

Completam o conjunto a mesa do altar, as credências e em plano inferior do corpo da capela-mor estão o cadeiral, ou estalas (em madeira), para a celebração dos ofícios, e as balaustradas em mármore coroadas por anjos que separam o espaço da capela-mor do transepto e da nave da igreja, para marcar a distinção entre o espaço reservado aos monges e a assembléia dos fiéis.





[1] CALMON, Pedro. História do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editôra,1963.
[2] MULLER. Gregório Os beneditinos na Bahia. Tipografia beneditina. Salvador-BA.
[3] FREIRE, Luiz Alberto. A talha neoclássica na Bahia. Rio de Janeiro: Versal, 2006.
[4] CÓDICE 34 – Capela-Mor 1860 – 1872. Salvador, Arquivo do Mosteiro de São Bento da Bahia.

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